Cooperativa instiga empoderamento feminino

dezembro 07, 2017


As mulheres compõe a principal força de trabalho das cooperativas de catadores de lixo reciclável no Brasil. Segundo levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, esse público representa 31,1%, enquanto o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (Mncr) declara que mais de 70% desse segmento é formado pelo público feminino.

Silene Alves da Silva, 44 anos, é uma dessas trabalhadoras. Mais conhecida como Tia, ela é uma das catadoras de lixo reciclável na região de Vila Prudente, zona Leste de São Paulo, e faz parte da Recifavela, cooperativa criada por moradores da Favela da Vila Prudente, antiga comunidade de São Paulo, fundada em 1940.

Em 2007, a cooperativa surgiu por meio de jovens da favela e catadores que ficavam em baixo do Viaduto da Grande São Paulo. “Ficamos no viaduto por cinco anos”, lembra Cristiano, um dos fundadores da cooperativa. Após um convênio com a Prefeitura de São Paulo, a instituição se realocou em um galpão, próximo ao local de origem.

Mãe de oito filhos e viúva, Tia trabalhava como catadora independente. “Mas de baixo do viaduto era ruim. A gente ficava na chuva, no sol, no vento e relento. Aqui não”, conta. Na cooperativa, há cinco anos, Silene, orgulha-se pelos benefícios que conquistou. “Agora, tenho meu dinheiro fixo por mês, horário de entrada e saída, além de aulas aqui dentro”.

"Ao todo, são 47 funcionários, sendo que 36 são mulheres”, conta Cristiano. Diante do cenário majoritariamente feminino, a cooperativa criou uma parceria com professores e alunos de psicologia da universidade Uninove para trabalhar o empoderamento. “Trabalhamos questões como liderança feminina e masculina, identidade, machismo e compreensão para que possam ressignificar suas vidas, potencializar a autoestima, a pertença e o diálogo entre eles”, explica Ivana, supervisora de estágio profissionalizante dos cursos de Psicologia da Uninove.

Por meio das dinâmicas com os psicólogos, Tia aprendeu a conversar com os cooperados e hoje desenvolve um papel de líder na cooperativa. “Eu converso, ouço os problemas, chamo em um canto para entender o que está acontecendo”. Querida pelos colegas, ela conta que quando falta no trabalho todos sentem sua ausência. “Se eu não venho, todos falam que dá vontade de ir embora”.

A cooperativa também promove aulas e incentivo aos estudos para mitigar problemas sociais dos catadores. Para monitorar casos de agressão, pedofilia, drogas, foi criado uma ferramenta de estatística por meio do fluxo de produção individual. Além de observar o comportamento, também avaliam a produtividade. “Nem sempre render 100% é um sinal positivo. Às vezes, ele está descarregando um estresse emocional e usa o trabalho como escape. Mas vai chegar uma hora que ele não vai aguentar mais, e então vai embora. É isso que a gente tenta evitar aqui”, explica Cristiano.

Pensando nos filhos das cooperadas, agora a Recifavela também possui uma biblioteca para estudos. “A intenção ano que vem é que todo dia tenha uma oficina diferente, com aulas de bateria, desenho e reforço escolar”, conta Cristiano. “Se meu filho fica aqui, consigo trabalhar mais tranquila”, afirma Tia.

O salário dos cooperados ainda não é o ideal. Porém, segundo Cristiano, o que está em questão são todos os ganhos sociais para quem faz parte da cooperativa, sobretudo mulheres como Tia. “Por isso, incentivamos que saiam de uma situação de vulnerabilidade, virem cooperados, e através dos cursos se especializem. É um processo de autoestima total, então ele olha e vê que não tem como regredir mais”, conclui.




(Reportagem produzida para o 12º Prêmio Santander Jovem Jornalista, que teve como tema "Redes em prol da sociedade")
Não fiquei entre os seis finalistas, mas senti muito orgulho de produzir uma matéria tão legal. Foi uma experiência e tanto. Ir atrás de um tema, das fontes, tudo tão rápido e ainda em fase de TCC.
Recomendo a todos participar da Semana Estado de Jornalismo, promovida pelo Estadão, e fazer a reportagem que concorre ao Prêmio Santander Jovem Jornalista, só a experiência é gratificante.

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