BASTIDORES: O OUTRO LADO DA GUERRA – A VISÃO DE QUEM COBRE

fevereiro 10, 2018


Escolher um tema para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – por mais que pensássemos nisso semestres antes, foi uma decisão um tanto difícil. Com um grupo de cinco estudantes, com gostos, vivências e personalidades diferentes, uma infinidade de temas surgiram. Em meio a tantas possibilidades, diversos ‘nãos’ do orientador, e discussões infindáveis, surgiu o tema: jornalistas de guerra. Embora não fosse um assunto próximo à nossa realidade, falar de jornalismo de forma tão específica, o tema obteve um ‘sim’ unânime. Tema aprovado!

A partir disto, as pesquisas começaram e diversos nomes despertaram nosso interesse. Não tínhamos noção que aqui no Brasil haviam tantos profissionais renomados na cobertura de guerra. Mesmo com um mailing vasto, tivemos alguns desafios. O contato com esses jornalistas, mesmo com a ajuda de colegas de profissão e professores, foi um pouco difícil, além de conseguir um horário em suas agendas um tanto quanto lotadas e incertas. Sem contar que alguns estavam viajando ou em gravações de programas que ocupavam integralmente seus dias.
(Integrantes do grupo com o jornalista José Hamilton Ribeiro. (Foto: Arquivo Pessoal)
Mesmo com essas adversidades, tivemos a sorte de muitos jornalistas nos receberam com muita receptividade, se adaptando até mesmo aos nossos horários. Abriram as portas de suas casas, e nos permitiram fazer parte, mesmo que por algumas horas, de suas intimidades. Sem repostas prontas. Sem pressa. Aqueles que possuíam pouca flexibilidade de tempo nos recepcionaram em seus ambientes de trabalho. Com isso, tivemos a oportunidade de conhecer a redação da ‘Folha de S. Paulo’ e da ‘TV Câmara’ de Guarulhos, os estúdios do ‘Fantástico’ no Rio de Janeiro e da ‘TV Globo’ em Brasília. Embora o tempo os limitassem, todos se permitiram estar, de fato, com a gente.
Além do conteúdo adquirido por meio dos relatos de nossos entrevistados, tivemos também a oportunidade de ver os objetos que cada um trouxe de suas experiências em países em guerra, como o capacete e o colar de identificação de corpo, bandeiras, e até ganhamos notas de bolívares venezuelanos. Mostraram também seus equipamentos, como câmeras e roupas que utilizavam em suas viagens, além de vídeos e fotos que guardavam em seus acervos. Esses pequenos detalhes nos aproximavam um pouco mais da realidade da cobertura de guerra, embora nada superasse suas histórias tão detalhadas e cheias de sentimentos.
Lourival Sant’Anna é um dos jornalistas entrevistados no documentário. (Foto: Arquivo pessoal)
Recebemos também alguns retornos negativos ao nosso convite para uma entrevista. Em contato com uma possível fonte, tive o retorno de que ele não se considerava um correspondente de guerra, e então, negou sua participação no documentário para não ofender colegas de profissão que pensam o contrário sobre a função. Além disso, descobrimos que, muitos veem a cobertura de guerra como perigosa e, por isso, nem todos se aventuram no front, preferindo cobrir do hotel. Há também a distinção de conteúdo, muitos fotojornalistas e cinegrafistas fazem imagens artísticas, mas também há aqueles que preferem retratar o terror. “A guerra como ela é”. Entre essas e outras descobertas, entendemos que cada jornalista tem uma opinião sobre esse fazer jornalístico.
Com um material bruto de 30 horas que deveria ser reduzido para 30 minutos, aprendemos a ser objetivos e cortar muita coisa que o nosso “apego” a princípio não nos permitia. Depois de muitas horas em ilha de edição conseguimos dar vida ao “O outro lado da guerra – A visão de quem cobre”.
Diogo Schelp, autor de um livro sobre correspondentes de guerra. (Foto: Arquivo Pessoal)
Neste documentário buscamos trazer os relatos de jornalistas brasileiros que cobriram ou ainda cobrem zonas de guerra, seja de forma independente ou enviados por veículos de comunicação. Nos relatos, eles trazem o olhar de profissionais do ramo impresso, fotojornalístico, televisivo e multimidiático. Assim, quem o assiste, tem acesso ao que poucos sabem: como e por quê cobrir uma guerra. Todo o seu processo, desde receber o convite para ser correspondente de guerra até voltar para casa e reencontrar a família, é abordado juntamente com as dificuldades enfrentadas, os interesses pessoais e a responsabilidade de informar com excelência e gerar ganho social.
Como jornalista, nunca me imaginei cobrindo uma guerra, mas hoje entendo a importância de fazê-lo. Muito mais importante que o número de mortos, é dar voz as pessoas que lá vivem e convivem diariamente com tantas perdas – seja da liberdade de ir e vir, de sua moradia, de um familiar ou da sua tranquilidade. Apesar dos riscos, vale a pena, porque no fim do dia, a sua história, foto ou vídeo mostrará uma realidade que precisa ser exposta e discutida.
Não quero exaltar a profissão, mesmo já fazendo isso, mas a gente tem mesmo um papel muito importante na sociedade – seja na cobertura de guerra, de conflitos ou do dia a dia. E eu sempre quis fazer parte disso.
Produzi esse texto para a Casa do Focas, portal destinado à estudantes e recém-formados em jornalismo, a convite do Emílio Coutinho. Confira a publicação aqui.

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